Leandro Frederico Marques
Em Miqueias 6:8 Deus deixou muito claro o que esperava
de Seu povo: que eles (1) praticassem a justiça, (2) amassem a fidelidade e
(3) andassem humildemente com Deus. Como a lógica do consumismo religioso
perverteu a compreensão dessas exigências na espiritualidade de Israel? Como
ela perverte tais exigências em nossa espiritualidade hoje?
Primeiramente, a
mentalidade consumista leva a pessoa de fé a identificar a exigência de praticar a justiça com o cumprir prescrições
e ritos religiosos (v.3-5). Infelizmente, Israel conheceu isso. Nos
dias do profeta Miquéias, o povo de Deus veio a acreditar que sacrificar
carneiros e bezerrros era o mesmo que fazer o bem, que fazer valer o direito do
orfão e da viúva, do pobre e da terra. Ele passou a crer que consumir rituais e
frequentar o templo equivalia a fazer a vontade de Deus, a ser justo diante de
seus olhos. Esse é um grave desvio que a lógica do consumo provoca na
experiência religiosa. Ele altera o quadro hermenêutico a partir do qual
interpretamos a exigência ética de transformação social e política privatizando
e espiritualizando a fé. Teria nossa clássica apatia e indiferença com relação
a essas dimensões da vida algo a ver com isso? Cabe perguntar: não é assim que
a maioria de nós evangélicos entende as célebres palavras de Jesus sobre a
primordialidade do Reino: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua
justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33)? Não é verdade
que compreendemos tal exigência em termos de leitura disciplinada da Bíblia,
vida de oração e frequência assídua aos cultos? Não é assim que garantimos que
“todas as coisas” nos sejam acrescentadas? Não estaríamos nós também
contaminados por essa lógica consumista? Será que nos tornamos também
consumidores de religião?
Em segundo
lugar, a lógica do consumo distorce a vida de fé produzindo uma negligência em relação à exigência
divina de fidelidade dando ensejo, por conseguinte, à idolatria
(v.16). Ao contrário da religiosidade saudável que se compromete com
Deus porque o ama, porque desejo contentá-lo e fazê-lo somente para Ele, o
consumismo religioso é volúvel e mesmo infiel. A causa disso é óbvia: o
consumidor religioso não constrói uma relação de amor com Deus, mas de utilidade. Se,
portanto, existe uma outra divindade que melhor me serve, então por que não me
voltar para ela? Assim operava a espiritualidade de Israel, que, à semelhança
do que houve nos dias do profeta Elias, ainda vivia flertando com Baal,
cocheando entre ele e Iavé, o Senhor. Em nosso caso, hoje, a divindade que mais
nos seduz é Mamon. E o problema não se restrige apenas aos tele-evangelistas
que descaradamente mercadejam o Evangelho vendendo novas formas de
indulgências, mas a toda a igreja no país que se vê às voltas com o seguinte
dilema: “temos usado nossas riquezas para servir a Deus ou temos usado Deus
para enriquecermos?”.
Finalmente, a
lógica do consumo perverte a experiência religiosa provocando uma terrível
inversão: ao invés de nos tornar mais
humildes, nos torna arrogantes em relação a Deus (v.1-3). Lendo o
oráculo proferido pelo profeta Miquéias, constatamos que o povo estava
reclamando de Deus pois acreditava ter direito a melhor sorte a despeito de
seus maus caminhos. Sem sombra de dúvida, tal atitude nasce da crença, segundo
a lógica consumista, de que o consumidor tem sempre razão, detém toda
autoridade e, por isso, encontra-se em lugar de fazer exigências. Cumpria a
Deus, reduzido ali à figura de um balconista obediente, atender-lhes os desejos.
Deus então os confronta solenemente colocando as coisas em seus devidos lugares
e pedindo do povo explicações: ”Ouçam o que diz o Senhor: Fique em pé,
defenda a sua causa; que as colinas ouçam o que você tem para
dizer. Ouçam, ó montes, a acusação do Senhor; escutem, alicerces eternos
da terra. Pois o Senhor tem uma acusação contra o seu povo; ele está entrando
em juízo contra Israel”. O que o Senhor diria para nós se hoje nós estivéssemos
em Sua presença? O que nós mereceríamos ouvir dos lábios do Senhor?
O critério
definitivo para responder essa pergunta é o mesmo que nos ajudará a discernir
se nos mantemos ligados a Deus através de uma relação de adoração e serviço ou
se em virtude de uma relação de consumo religioso. Toda essa movimentação, esse
ir e vir à igreja, esse monte de retiros e encontros e seminários, as muitas
vígilias e reuniões, os livros lidos e os sermões ouvidos tem nos transformado
em gente cheia de Deus? Tem efetivamente contribuído para nos fazer pessoas
mais parecidas com Cristo? Gente mais cheia de amor, de compaixão, de
indignação perante a injustiça e solidariedade para com o necessitado? Ou nos
tornamos apenas consumidores de religião?
Essa pergunta cabe a cada um responder.
Leandro F.
Marques é pastor presbiteriano; meste em Teologia pela PUC-RJ
Texto adaptado
de: http://lemarques.wordpress.com/2010/12/14/consumismo-religioso-2/