quinta-feira, 11 de abril de 2013

SOCIOLOGIA: CONSUMISMO RELIGIOSO



Leandro Frederico Marques

Em Miqueias 6:8 Deus deixou muito claro o que esperava de Seu povo: que eles (1) praticassem a justiça, (2) amassem a fidelidade e (3) andassem humildemente com Deus. Como a lógica do consumismo religioso perverteu a compreensão dessas exigências na espiritualidade de Israel? Como ela perverte tais exigências em nossa espiritualidade hoje?
Primeiramente, a mentalidade consumista leva a pessoa de fé a identificar a exigência de praticar a justiça com o cumprir prescrições e ritos religiosos (v.3-5). Infelizmente, Israel conheceu isso. Nos dias do profeta Miquéias, o povo de Deus veio a acreditar que sacrificar carneiros e bezerrros era o mesmo que fazer o bem, que fazer valer o direito do orfão e da viúva, do pobre e da terra. Ele passou a crer que consumir rituais e frequentar o templo equivalia a fazer a vontade de Deus, a ser justo diante de seus olhos. Esse é um grave desvio que a lógica do consumo provoca na experiência religiosa. Ele altera o quadro hermenêutico a partir do qual interpretamos a exigência ética de transformação social e política privatizando e espiritualizando a fé. Teria nossa clássica apatia e indiferença com relação a essas dimensões da vida algo a ver com isso? Cabe perguntar: não é assim que a maioria de nós evangélicos entende as célebres palavras de Jesus sobre a primordialidade do Reino: “Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6:33)? Não é verdade que compreendemos tal exigência em termos de leitura disciplinada da Bíblia, vida de oração e frequência assídua aos cultos? Não é assim que garantimos que “todas as coisas” nos sejam acrescentadas? Não estaríamos nós também contaminados por essa lógica consumista? Será que nos tornamos também consumidores de religião?
Em segundo lugar, a lógica do consumo distorce a vida de fé produzindo uma negligência em relação à exigência divina de fidelidade dando ensejo, por conseguinte, à idolatria (v.16). Ao contrário da religiosidade saudável que se compromete com Deus porque o ama, porque desejo contentá-lo e fazê-lo somente para Ele, o consumismo religioso é volúvel e mesmo infiel. A causa disso é óbvia: o consumidor religioso não constrói uma relação de amor com Deus, mas de utilidade. Se, portanto, existe uma outra divindade que melhor me serve, então por que não me voltar para ela? Assim operava a espiritualidade de Israel, que, à semelhança do que houve nos dias do profeta Elias, ainda vivia flertando com Baal, cocheando entre ele e Iavé, o Senhor. Em nosso caso, hoje, a divindade que mais nos seduz é Mamon. E o problema não se restrige apenas aos tele-evangelistas que descaradamente mercadejam o Evangelho vendendo novas formas de indulgências, mas a toda a igreja no país que se vê às voltas com o seguinte dilema: “temos usado nossas riquezas para servir a Deus ou temos usado Deus para enriquecermos?”.
Finalmente, a lógica do consumo perverte a experiência religiosa provocando uma terrível inversão: ao invés de nos tornar mais humildes, nos torna arrogantes em relação a Deus (v.1-3). Lendo o oráculo proferido pelo profeta Miquéias, constatamos que o povo estava reclamando de Deus pois acreditava ter direito a melhor sorte a despeito de seus maus caminhos. Sem sombra de dúvida, tal atitude nasce da crença, segundo a lógica consumista, de que o consumidor tem sempre razão, detém toda autoridade e, por isso, encontra-se em lugar de fazer exigências. Cumpria a Deus, reduzido ali à figura de um balconista obediente, atender-lhes os desejos. Deus então os confronta solenemente colocando as coisas em seus devidos lugares e pedindo do povo explicações: ”Ouçam o que diz o Senhor: Fique em pé, defenda a sua causa; que as colinas ouçam o que você tem para dizer. Ouçam, ó montes, a acusação do Senhor; escutem, alicerces eternos da terra. Pois o Senhor tem uma acusação contra o seu povo; ele está entrando em juízo contra Israel”. O que o Senhor diria para nós se hoje nós estivéssemos em Sua presença? O que nós mereceríamos ouvir dos lábios do Senhor?
O critério definitivo para responder essa pergunta é o mesmo que nos ajudará a discernir se nos mantemos ligados a Deus através de uma relação de adoração e serviço ou se em virtude de uma relação de consumo religioso. Toda essa movimentação, esse ir e vir à igreja, esse monte de retiros e encontros e seminários, as muitas vígilias e reuniões, os livros lidos e os sermões ouvidos tem nos transformado em gente cheia de Deus? Tem efetivamente contribuído para nos fazer pessoas mais parecidas com Cristo? Gente mais cheia de amor, de compaixão, de indignação perante a injustiça e solidariedade para com o necessitado? Ou nos tornamos apenas consumidores de religião?
Essa pergunta cabe a cada um responder.

Leandro F. Marques é pastor presbiteriano; meste em Teologia pela PUC-RJ

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