O CRISTÃO E A CULTURA
H. Richard Niebuhr (1894-1962), apresentou em
seu livro Cristo e cultura cinco categorias de classificação do
relacionamento entre o cristão e a cultura, fornecendo, assim, ferramentas para
descrever a forma que os cristãos encaram questões sociais, éticas, políticas e
econômicas
1. O cristão contra a cultura
Os que seguem esta corrente enfatizam que, diante da natureza decaída da
criação, é necessário que se criem estruturas alternativas, e que estas sigam
mais de perto o chamado radical do evangelho. Resumidamente, a cultura é caída,
má e demoníaca; rejeite tudo.
2. O cristão da cultura
Os ensinos do evangelho têm íntima relação com as estruturas culturais, num
processo de acomodação a esta. Ou seja, toda e qualquer cultura é incorporada
no cristianismo.
Apesar das objeções que são lançadas a esta posição, ela tem sido influente
na história da igreja. Os ensinos de gnósticos do século III, Abelardo de Paris
(1079–1142) e dos teólogos liberais do século XIX refletem esta posição.. A
igreja evangélica na Alemanha, por influência deste entendimento, trocou seu
nome para Igreja do Reich e seus pregadores juraram obediência a Hitler.
O fundamentalismo americano acabou espelhando esta posição, afirmando os
valores básicos da cultura dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, se por um lado
rejeitamos toda cultura local (o cristão contra a cultura), por outro acabamos
abraçando a cultura americana (o cristão da cultura), como se ela fosse uma
cultura cristã e achamos que uma cultura é intrinsicamente superior a outra.
3. O cristão acima da cultura
Este é o conceito católico, influenciado por Clemente de Alexandria
(c.150–c.215) e Tomás de Aquino (1225–1274), que busca uma unidade entre o
cristão e a cultura, onde toda a sociedade aparece hierarquizada. Na Idade
Média o ensino eclesiástico alcançou quase todos os aspectos da sociedade: suas
práticas religiosas formaram o calendário; seus rituais marcaram momentos
importantes (batismo, confirmação, casamento, ordenação) e seus ensinamentos
sustentavam crenças sobre moralidade, significado da vida e a vida após a
morte. A igreja e sua mensagem são institucionalizadas e o que deveria ser
condicionado culturalmente é absolutizado. Neste terceiro modelo, o que é
levado não é o evangelho, mas uma cultura.
4. O cristão e a cultura em paradoxo
Posição comumente associada a Martinho Lutero (1483-1546) e Søren
Kierkegaard (1813-1855). Esta posição mantém o entendimento bíblico da queda e
da miséria do pecado, e o chamado para se lidar com a cultura. A relação do
cristão com a cultura é marcada por uma tensão dinâmica entre a ira e a
misericórdia.
Lutero enfatizou este tema com sua doutrina dos “dois reinos”: a mão
esquerda, mundana, segura a espada do poder no mundo, enquanto a mão direita,
celeste, segura a espada do Espírito, a Palavra de Deus. Não se pode tentar
coagir a fé, nem se pode tentar acomodar a fé aos modos seculares de
pensamento.
Um exemplo: espancamento feminino. A mulher deve processar o marido? Nesta
visão paradoxal, como cristã, ela não deveria (pois o crente não leva outro ao
tribunal secular), mas como cidadã, sim. Então, a mulher vive um conflito
paradoxal.
5. O cristão como agente transformador da cultura
A cultura deve ser levada cativa ao senhorio de Cristo. Sem desconsiderar a
queda e o pecado, mas enfatizando que, no princípio, a criação era boa, os que
estão nesse grupo enfatizam que um dos objetivos da redenção é transformar a
cultura. Sendo assim, por mais iníquas que sejam certas instituições, elas não
estão fora do alcance da soberania de Deus. Ou seja, mesmo sabendo da queda, o
cristão não abandona a cultura (o cristão contra a cultura), mas busca
redimi-la, levá-la aos pés de Cristo.
Agostinho (354-430), João Calvino (1509-1564), John Wesley (1703-1791) e
Abraham Kuyper (1837-1920) são alguns dos que entenderam que os cristãos são
agentes de transformação da cultura, posição que é exposta nesta obra de
Niebuhr. Em Apocalipse, vemos que Deus redime tanto a pessoa, como a
diversidade cultural.
Nesta posição, não há divisão entre o sagrado e o profano – essa é uma
dicotomia católica (a divisão sagrado/profano afirma que na igreja fazemos
atividades sagradas e, no mundo, atividades profanas; ou seja, rezar, ser padre
é algo sagrado, mas construir um prédio e ser um engenheiro são coisas
profanas). A divisão bíblica é entre o que é santo e está em pecado; e que está
em pecado deve ser santificado.
Síntese apresentada em:
http://voltemosaoevangelho.com/blog/2013/02/franklin-ferreira-o-cristao-e-a-cultura/#axzz2Mekvzenj
Nenhum comentário:
Postar um comentário