SANTO REMÉDIO
"O Evangelho não é uma fórmula para
ser usada em momentos de crises, mas remédio para o tratamento contínuo de uma
enfermidade crônica - o pecado".
Ed René Kivitz
Quase ninguém sabe o que é
benzilpenicilina benzatina, mesmo os que já sofreram na ponta da agulha de uma
Benzetacil. E o que dizer do bromazepan, cujo nome de guerra é Lexotan? Sabe o
que é brometo de n-butilescopolamina? Nada mais, nada menos, que o Buscopam. O
cloridrato de fluoxetina é o famosíssimo Prozac. E eu jamais viajo sem a
companhia de mucato de isometepteno mais dipirona sódica mais cafeína anidra -
ou, simplesmente, Neosaldina.
O Evangelho é um santo remédio.
Bem, pelo menos costumava ser. Ou melhor, ainda é, caso estejamos a falar do
genérico. Sim, porque os laboratórios eclesiásticos institucionais empacotaram
a essência de maneira a torná-la mais atraente, e nessa manipulação das
substâncias o conteúdo do Evangelho foi alterado. Mais vale a embalagem e o
marketing do que o remédio em si. Fiz uma pequena pesquisa no mercado e encontrei
o genérico Evangelho empacotado em diversas versões. Uma pior do que a outra.
Mas todas muito populares.
Encontrei o Evangelho versão incorporação. A
receita diz que o usuário deve esvaziar-se completamente de suas
responsabilidades pessoais, para tornar-se gradativamente um mero instrumento
despersonalizado das forças espirituais. A fórmula foi muito usada nos
terreiros de macumba e centros espíritas, adotadas pelos "cavalos" e
"cambonos", e depois foi adotada por setores da Igreja Evangélica que
acreditam que o ideal de intimidade com Deus e performance ministerial é a
completa anulação pessoal em sujeição ao Espírito-espíritos. O usuário deste
remédio passa a justificar todas as coisas pela ação direta do Espírito Santo -
ou outro espírito, sabe-se lá: "Foi o Espírito quem me conduziu";
"Foi o Espírito quem disse", e outras coisas, como se o Espírito
Santo tivesse "baixado" no sujeito.
Encontrei também o Evangelho versão segregação. Muito
caro, usado apenas por uma casta especial de favorecidos por Deus: os filhos do
Rei. Os usuários do Evangelho de segregação proclamam que as riquezas do mundo
pertencem a Deus e a seus filhos, mas foram usurpadas pelo Diabo e os ímpios.
Acreditam que após algumas doses regulares, geralmente tomadas em correntes e
vigílias, os favorecimentos divinos vão sendo canalizados na direção deles. A
fórmula foi emprestada dos regimes totalitários, onde as benesses sociais são
acessíveis apenas aos que são leais ao poder estabelecido, e os
"rebeldes" são espoliados em favor de uma minoria. Diversos segmentos
da Igreja Evangélica acreditam que Deus existe para satisfazer os seus e que o
mundo existe para ser saqueado.
Há também o Evangelho de mediação. Esse é
administrado apenas nas farmácias espirituais certas, em sujeição aos enfermeiros
espirituais certos. Muito popular nos grandes impérios eclesiásticos centrados
nas figuras carismáticas de seus fundadores e proprietários. Há crentes que são
levados a acreditar que a relação com Deus é subproduto da correta
identificação institucional, de um institucionalismo hierarquizado. A
propaganda deste remédio não fala mais de antes e depois do Evangelho, ou antes
e depois de Cristo; mas sim, de antes e depois da igreja "A" ou
"B", ou antes e depois da unção do bispo, do missionário ou do apóstolo.
Já me deparei também com o Evangelho versão sacramentalismo. É
administrado com dia e hora marcados. Para ter acesso a uma dose, o usuário
deve comparecer às atividades propostas pela autoridade clínica: a igreja e seu
respectivo guru - pode ser numa corrente da fé, na campanha da vitória, na
noite do milagre, no dia do santo jejum, e por aí vai. Mas quem não estiver lá
perde a dose. Fica sem o remédio. A fórmula foi desenvolvida na cultura da
santa missa: sacramento que transfere graça. É adotada por grupos evangélicos
que acreditam que a participação na ciranda cúltica é a principal fonte de
benefício espiritual para os fiéis. E fonte de enriquecimento para a indústria
farmacêutica espiritual, é claro.
Já ouvi falar também do Evangelho versão misticismo.
Fundamenta-se na completa rejeição à ciência e à razão; fica mais para o lado
da pajelança, das experiências empíricas, de crendices e lendas transmitidas
oralmente. Coisa de "remédio que a minha avó usava". Assim como os
povos primitivos explicavam todos os fenômenos e acontecimentos pela ação
direta de poderes espirituais, há muitos evangélicos que acreditam que crer não
tem nada a ver com pensar. Para eles, o ser humano é uma vítima, no máximo
coadjuvante, das forças dos espíritos do bem e do mal.
Durante muito tempo, a indústria farmacêutica religiosa acreditou que esse remédio era usado pelos pobres e os que tiveram menos acesso às informações científicas. Mas logo descobriu um monte de místico rico, e aí passou a empacotar melhor a coisa e vendê-la através do marketing direto, de casa em casa, nas mansões e condomínios chiques das cidades. Há sinais de que os laboratórios esotéricos evangélicos estão ganhando muito dinheiro com esse público.
Durante muito tempo, a indústria farmacêutica religiosa acreditou que esse remédio era usado pelos pobres e os que tiveram menos acesso às informações científicas. Mas logo descobriu um monte de místico rico, e aí passou a empacotar melhor a coisa e vendê-la através do marketing direto, de casa em casa, nas mansões e condomínios chiques das cidades. Há sinais de que os laboratórios esotéricos evangélicos estão ganhando muito dinheiro com esse público.
Há ainda o remédio conhecido
como Evangelho racionalista. Usado,
ou melhor, comprado, pelos que sabem sem crer. Eles apenas compram e não usam,
deixam as caixas de remédios guardadas no armário. Muitos gostam de estudar
detalhadamente a bula, mas poucos já tomaram uma dose sequer. Os que tomam,
fazem-no muito de vez em quando. Nunca se submetem a um tratamento de longo
prazo com doses regulares para que o genérico faça efeito. A fórmula teve
origem no movimento iluminista, que colocou o homem como medida de todas as
coisas, e até hoje influencia parte da Igreja de Cristo que acredita que Deus
criou o mundo com suas leis inexoráveis e pronto - uma espécie de fé
naturalista, coisa de gente esclarecida, doente cult.
Mas graças a Deus o genérico
Evangelho continua disponível em centenas e milhares de comunidades terapêuticas,
administrado pelos doutores à moda antiga, médicos de família, que acompanham a
história de seus pacientes, conhecem-nos pelo nome, mantêm com eles relações
afetivas e praticam a medicina espiritual na perspectiva do sacerdócio, e não
do comércio. Há milhares e milhares de usuários do genérico Evangelho, que se
cuidam mutuamente. Um sem-número de usuários que descobriram que o genérico
Evangelho não é uma fórmula para ser usada em momentos de crises, mas sim para
o tratamento contínuo de uma enfermidade crônica - o pecado. Pessoas que não se
impressionam pelo rótulo, conseguem crer no que é simples, confiam na sabedoria
milenar e compreendem que o mundo tem uma química divina, porém delicada, que
facilmente se desarranja quando manipulada sem critério e sem cuidado.
Ed René Kivitz
é conferencista e pastor da Igreja Batista Água Branca (SP)
Fonte: Revista Eclésia
http://www.eclesia.com.br/colunistas/2002-07-dialogo.html
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