quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

REFLEXÃO


SANTO REMÉDIO

"O Evangelho não é uma fórmula para ser usada em momentos de crises, mas remédio para o tratamento contínuo de uma enfermidade crônica - o pecado".

 Ed René Kivitz

     Quase ninguém sabe o que é benzilpenicilina benzatina, mesmo os que já sofreram na ponta da agulha de uma Benzetacil. E o que dizer do bromazepan, cujo nome de guerra é Lexotan? Sabe o que é brometo de n-butilescopolamina? Nada mais, nada menos, que o Buscopam. O cloridrato de fluoxetina é o famosíssimo Prozac. E eu jamais viajo sem a companhia de mucato de isometepteno mais dipirona sódica mais cafeína anidra - ou, simplesmente, Neosaldina.
     
     O Evangelho é um santo remédio. Bem, pelo menos costumava ser. Ou melhor, ainda é, caso estejamos a falar do genérico. Sim, porque os laboratórios eclesiásticos institucionais empacotaram a essência de maneira a torná-la mais atraente, e nessa manipulação das substâncias o conteúdo do Evangelho foi alterado. Mais vale a embalagem e o marketing do que o remédio em si. Fiz uma pequena pesquisa no mercado e encontrei o genérico Evangelho empacotado em diversas versões. Uma pior do que a outra. Mas todas muito populares.

     Encontrei o Evangelho versão incorporação. A receita diz que o usuário deve esvaziar-se completamente de suas responsabilidades pessoais, para tornar-se gradativamente um mero instrumento despersonalizado das forças espirituais. A fórmula foi muito usada nos terreiros de macumba e centros espíritas, adotadas pelos "cavalos" e "cambonos", e depois foi adotada por setores da Igreja Evangélica que acreditam que o ideal de intimidade com Deus e performance ministerial é a completa anulação pessoal em sujeição ao Espírito-espíritos. O usuário deste remédio passa a justificar todas as coisas pela ação direta do Espírito Santo - ou outro espírito, sabe-se lá: "Foi o Espírito quem me conduziu"; "Foi o Espírito quem disse", e outras coisas, como se o Espírito Santo tivesse "baixado" no sujeito.
     Encontrei também o Evangelho versão segregação. Muito caro, usado apenas por uma casta especial de favorecidos por Deus: os filhos do Rei. Os usuários do Evangelho de segregação proclamam que as riquezas do mundo pertencem a Deus e a seus filhos, mas foram usurpadas pelo Diabo e os ímpios. Acreditam que após algumas doses regulares, geralmente tomadas em correntes e vigílias, os favorecimentos divinos vão sendo canalizados na direção deles. A fórmula foi emprestada dos regimes totalitários, onde as benesses sociais são acessíveis apenas aos que são leais ao poder estabelecido, e os "rebeldes" são espoliados em favor de uma minoria. Diversos segmentos da Igreja Evangélica acreditam que Deus existe para satisfazer os seus e que o mundo existe para ser saqueado.

     Há também o Evangelho de mediação. Esse é administrado apenas nas farmácias espirituais certas, em sujeição aos enfermeiros espirituais certos. Muito popular nos grandes impérios eclesiásticos centrados nas figuras carismáticas de seus fundadores e proprietários. Há crentes que são levados a acreditar que a relação com Deus é subproduto da correta identificação institucional, de um institucionalismo hierarquizado. A propaganda deste remédio não fala mais de antes e depois do Evangelho, ou antes e depois de Cristo; mas sim, de antes e depois da igreja "A" ou "B", ou antes e depois da unção do bispo, do missionário ou do apóstolo.

     Já me deparei também com o Evangelho versão sacramentalismo. É administrado com dia e hora marcados. Para ter acesso a uma dose, o usuário deve comparecer às atividades propostas pela autoridade clínica: a igreja e seu respectivo guru - pode ser numa corrente da fé, na campanha da vitória, na noite do milagre, no dia do santo jejum, e por aí vai. Mas quem não estiver lá perde a dose. Fica sem o remédio. A fórmula foi desenvolvida na cultura da santa missa: sacramento que transfere graça. É adotada por grupos evangélicos que acreditam que a participação na ciranda cúltica é a principal fonte de benefício espiritual para os fiéis. E fonte de enriquecimento para a indústria farmacêutica espiritual, é claro.

     Já ouvi falar também do Evangelho versão misticismo. Fundamenta-se na completa rejeição à ciência e à razão; fica mais para o lado da pajelança, das experiências empíricas, de crendices e lendas transmitidas oralmente. Coisa de "remédio que a minha avó usava". Assim como os povos primitivos explicavam todos os fenômenos e acontecimentos pela ação direta de poderes espirituais, há muitos evangélicos que acreditam que crer não tem nada a ver com pensar. Para eles, o ser humano é uma vítima, no máximo coadjuvante, das forças dos espíritos do bem e do mal.
Durante muito tempo, a indústria farmacêutica religiosa acreditou que esse remédio era usado pelos pobres e os que tiveram menos acesso às informações científicas. Mas logo descobriu um monte de místico rico, e aí passou a empacotar melhor a coisa e vendê-la através do marketing direto, de casa em casa, nas mansões e condomínios chiques das cidades. Há sinais de que os laboratórios esotéricos evangélicos estão ganhando muito dinheiro com esse público.
    
     Há ainda o remédio conhecido como Evangelho racionalista. Usado, ou melhor, comprado, pelos que sabem sem crer. Eles apenas compram e não usam, deixam as caixas de remédios guardadas no armário. Muitos gostam de estudar detalhadamente a bula, mas poucos já tomaram uma dose sequer. Os que tomam, fazem-no muito de vez em quando. Nunca se submetem a um tratamento de longo prazo com doses regulares para que o genérico faça efeito. A fórmula teve origem no movimento iluminista, que colocou o homem como medida de todas as coisas, e até hoje influencia parte da Igreja de Cristo que acredita que Deus criou o mundo com suas leis inexoráveis e pronto - uma espécie de fé naturalista, coisa de gente esclarecida, doente cult.

     Mas graças a Deus o genérico Evangelho continua disponível em centenas e milhares de comunidades terapêuticas, administrado pelos doutores à moda antiga, médicos de família, que acompanham a história de seus pacientes, conhecem-nos pelo nome, mantêm com eles relações afetivas e praticam a medicina espiritual na perspectiva do sacerdócio, e não do comércio. Há milhares e milhares de usuários do genérico Evangelho, que se cuidam mutuamente. Um sem-número de usuários que descobriram que o genérico Evangelho não é uma fórmula para ser usada em momentos de crises, mas sim para o tratamento contínuo de uma enfermidade crônica - o pecado. Pessoas que não se impressionam pelo rótulo, conseguem crer no que é simples, confiam na sabedoria milenar e compreendem que o mundo tem uma química divina, porém delicada, que facilmente se desarranja quando manipulada sem critério e sem cuidado.

Ed René Kivitz
é conferencista e pastor da Igreja Batista Água Branca (SP)
Fonte: Revista Eclésia
http://www.eclesia.com.br/colunistas/2002-07-dialogo.html

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