Lourenço
Stelio Rega
Alguns programas religiosos da televisão surpreendem pela essência do
Evangelho que pregam. Dão a impressão de que estão em busca de conquistar a
alma do indivíduo como um vendedor que seduz o comprador de seus produtos.
Alguns pregadores desejam tomar posse da alma do telespectador como se
conquista um bem ou produto.
Na realidade, muitos demonstram estar interessados no bolso do futuro
"converso". Pregam o Evangelho e vendem a salvação como se fosse
mercadoria. Uma vez tomada posse da alma, conquistado o território do sagrado
no interior do indivíduo, procuram sugar tudo o que ele possui em troca de
promessas de uma vida melhor e da solução de todo tipo de mazelas.
Para conquistar o sujeito que está à procura da libertação das angústias
do cotidiano, a mensagem do Evangelho acaba sendo adulterada. Textos como o de
Lucas 9.23 - "Se alguém quiser vir após mim [Cristo], negue-se a si
mesmo" -, devem ser deixados de lado e substituídos por "Vinde a mim
todos os que estais cansados e sobrecarregados".
Na verdade, estamos passando por um período dos mais sérios do
cristianismo, em que a lógica e a racionalidade do mercado passaram a ser
paradigmas eclesiásticos. Na lógica do mercado, é preciso atender ao cliente.
Muitos líderes religiosos tratam o crente como um cliente cada vez mais
exigente. Deus sai do comando e o cliente passa a determinar o que é certo ou
errado, o que é bom para a igreja e o que não é. "Satisfação garantida ou
seu dízimo de volta" passa a ser o lema.
A pergunta que hoje geralmente se faz é: "Isso funciona"? Mas
deveríamos perguntar primeiro: "Isso é bíblico"? Assim, o Evangelho
em que Deus é o centro passa a ser travestido por um Evangelho onde o homem é o
centro, no qual a verdade depende da conveniência do indivíduo, e não da
correspondência com os fatos. Palavras são redefinidas. O desejo, os interesses
e os instintos primários segundo a visão humana tomam lugar daquilo que é reto
segundo os princípios divinos. O homem passa a ser o centro, o senhor; e Deus
torna-se seu servo.
Está funcionando a pleno vapor a indústria da fé, ou indústria gospel. Os profetas e sacerdotes desta
indústria procuram dar à salvação sabor e aroma mais palatáveis ao homem
pós-moderno. Com isso, nivela-se por baixo a essência do Evangelho. A salvação
torna-se objeto de consumo, bilhete para ingressar no "tabernáculo"
de Deus e ser detentor de direitos divinais para conquistar o sucesso na vida.
Nesse mundo dos negócios celestiais, há de tudo: franquias de igrejas,
concorrência e know-how de captação
de dízimos, marketing eclesiástico
etc. Quem está interessado nesse Evangelho mercantilizado? Somente aqueles para
os quais o lema é: "Importa que eu cresça e que Deus diminua e me sirva,
afinal ele é o paizinho rico!".
Lourenço
Stelio Rega
é teólogo, educador e escritor.
é teólogo, educador e escritor.
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