quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Soteriologia - "Salvação como Mercadoria?"


Lourenço Stelio Rega

Alguns programas religiosos da televisão surpreendem pela essência do Evangelho que pregam. Dão a impressão de que estão em busca de conquistar a alma do indivíduo como um vendedor que seduz o comprador de seus produtos. Alguns pregadores desejam tomar posse da alma do telespectador como se conquista um bem ou produto.
Na realidade, muitos demonstram estar interessados no bolso do futuro "converso". Pregam o Evangelho e vendem a salvação como se fosse mercadoria. Uma vez tomada posse da alma, conquistado o território do sagrado no interior do indivíduo, procuram sugar tudo o que ele possui em troca de promessas de uma vida melhor e da solução de todo tipo de mazelas.
Para conquistar o sujeito que está à procura da libertação das angústias do cotidiano, a mensagem do Evangelho acaba sendo adulterada. Textos como o de Lucas 9.23 - "Se alguém quiser vir após mim [Cristo], negue-se a si mesmo" -, devem ser deixados de lado e substituídos por "Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados".
Na verdade, estamos passando por um período dos mais sérios do cristianismo, em que a lógica e a racionalidade do mercado passaram a ser paradigmas eclesiásticos. Na lógica do mercado, é preciso atender ao cliente. Muitos líderes religiosos tratam o crente como um cliente cada vez mais exigente. Deus sai do comando e o cliente passa a determinar o que é certo ou errado, o que é bom para a igreja e o que não é. "Satisfação garantida ou seu dízimo de volta" passa a ser o lema.
A pergunta que hoje geralmente se faz é: "Isso funciona"? Mas deveríamos perguntar primeiro: "Isso é bíblico"? Assim, o Evangelho em que Deus é o centro passa a ser travestido por um Evangelho onde o homem é o centro, no qual a verdade depende da conveniência do indivíduo, e não da correspondência com os fatos. Palavras são redefinidas. O desejo, os interesses e os instintos primários segundo a visão humana tomam lugar daquilo que é reto segundo os princípios divinos. O homem passa a ser o centro, o senhor; e Deus torna-se seu servo.
Está funcionando a pleno vapor a indústria da fé, ou indústria gospel. Os profetas e sacerdotes desta indústria procuram dar à salvação sabor e aroma mais palatáveis ao homem pós-moderno. Com isso, nivela-se por baixo a essência do Evangelho. A salvação torna-se objeto de consumo, bilhete para ingressar no "tabernáculo" de Deus e ser detentor de direitos divinais para conquistar o sucesso na vida.
Nesse mundo dos negócios celestiais, há de tudo: franquias de igrejas, concorrência e know-how de captação de dízimos, marketing eclesiástico etc. Quem está interessado nesse Evangelho mercantilizado? Somente aqueles para os quais o lema é: "Importa que eu cresça e que Deus diminua e me sirva, afinal ele é o paizinho rico!".

Lourenço Stelio Rega
é teólogo, educador e escritor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário