Pr. Adolfo S. Suárez
De acordo com Ellen White,
a redenção é um tema que vai além da compreensão humana; “é um tema inesgotável, merecedor de nossa
contemplação mais íntima. Ultrapassa a compreensão do mais profundo pensamento,
a extensão da mais vívida imaginação”.[1] Neste sentido, ela
considerava que “a obra da redenção [...] é um mistério”, a despeito de ser
“uma obra maravilhosa”.[2] Na verdade, não era apenas um mistério, mas “o
mistério dos mistérios”.[3]
Mas, por que razão ela considera a redenção um mistério? Há três aspectos a
serem considerados nessa expressão whiteana. O primeiro é que “por um processo
misterioso tanto
a anjos como também aos homens, Cristo assumiu a humanidade”.[4]
Há mistério na encarnação de Cristo, processo este que lhe permitiu esconder
“sua divindade, deixando de lado sua glória”.[5]
Além disso, e devido à inesgotabilidade do tema, Ellen White entende que a
mente humana tem dificuldade para captar racionalmente o quadro completo do
significado da cruz que foi levantada, com seu consequente quadro de
sofrimento, o qual garantia a redenção da humanidade.[6] Daí ser um mistério no
sentido de ser de difícil compreensão; pelo entendimento da dificuldade humana
de captar racionalmente o tema da cruz, possivelmente Ellen White esteja se
referindo ao discurso paulino da loucura da cruz e do crucificado.
De acordo com São Paulo, a
mensagem da redenção, e especificamente da cruz, era uma loucura para a
sabedoria humana. Ele discute essa temática em 1 Coríntios 1.18-25. As mentes
racionais da época – os ‘scholars’ (grammateus,
“escribas”, secretários) e os ‘filósofos’ (suzetetes,
“inquiridores”, sofistas, debatedores)[7]
– não conseguiam entender a loucura da mensagem da cruz desde uma perspectiva
racional porque, argumenta o apóstolo, “a sabedoria deste mundo é loucura
diante de Deus” (1 Coríntios 3.19). Como afirma o teólogo australiano Leon
Morris, ”Paulo não está minimizando a
capacidade dos sábios mundanos dentro de seu próprio campo. Mas ele
corajosamente nega que a astúcia deles é de qualquer valor quando estão diante
de Deus”.[8]
E a razão é que, embora os sábios tenham uma noção de salvação divina (para
judeus, através dos milagres-poder; para os gregos, através da filosofia,
conhecimento), eles não podem compreender que a salvação venha através do
Cristo crucificado, pois isso é incompreensível. É loucura. Para o teólogo
David Garland, ao falar do Cristo crucificado, “Paulo prega algo chocante”,
destacando o fato de que “do ponto de vista judaico, um Messias crucificado era
um paradoxo, que se torna um grande obstáculo, porque a Escritura marca
qualquer um enforcado em uma árvore como maldito de Deus (Deuteronômio 21.23)”.[9] Além disso, “a cruz também desfaz a acalentada
esperança de triunfo temporal e supremacia mundial”,[10] tão ansiada pelos judeus, numa época de
submissão ao Império romano. Por outro lado, como afirma o teólogo Simon
Kistemaster, para os gentios (não judeus), a idéia de proclamar uma mensagem
sobre alguém que fora pregado na cruz
era uma loucura total, pois uma pessoa crucificada pelas autoridades romanas
geralmente era escravo penal. Na mentalidade gentílica, então, seria ridículo
dizer algo bom a respeito de um homem condenado a morrer dessa maneira; certamente,
um escravo criminoso que morrera na cruz não poderia ser Senhor e Salvador da
humanidade.[11]
Obviamente, a expressão
paulina de que a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus, não significa
desprezo da sabedoria humana, mas uma ênfase em sua insuficiência, inadequação
e até mesmo contradição para entender os desígnios divinos, os quais, ao não
seguirem muitas vezes a lógica humana, são de difícil compreensão. A loucura está não apenas em afirmar que
Deus submeteu Seu filho a todo o processo da morte de cruz, mas em demandar aos
ouvintes que se juntem a Cristo em Sua humilhação e morte. Isso era uma
loucura. Afinal, que status e honra poderia decorrer de uma pessoa humilhada?[12]
Em terceiro lugar, o
mistério whiteano parece referir-se aos resultados da salvação efetuada por
Cristo, os quais, por extensos, são incompreensíveis. Assim ela o expressa:
Os
mistérios de redenção, a mistura do divino e o humano em Cristo, sua
encarnação, sacrifício, mediação, será suficiente para prover mentes, corações,
línguas e canetas com temas para pensamento e expressão durante todo o tempo; e
o tempo não será suficiente para esvaziar as maravilhas de salvação, mas
através das eras eternas, Cristo será a ciência e a canção da alma resgatada.
Novos desenvolvimentos da perfeição e glória de Deus em face de Jesus Cristo
estarão sempre se desdobrando.[13]
Além de Ellen White apontar para a questão já tratada
acima – a loucura da salvação pelo Cristo crucificado – a autora entende que é
impossível ao ser humano “compreender a obra da redenção. Seu mistério excede
ao conhecimento humano; todavia, aquele que passa da morte para a vida percebe
que é uma divina realidade”.[14]
De igual modo, percebe-se a ênfase de Ellen White ao utilizar-se da dialética
paulina sabedoria X loucura. Neste caso, passar da morte para a vida pode ser
entendido como passar da sabedoria do mundo para a sabedoria de Deus, que
permite compreender pela fé o mistério da Cruz.
Ellen White faz outras abordagens sobre o ‘mistério’ da
redenção; diz, por exemplo:
Este é o
mistério da misericórdia [...]: que Deus pode ser justo, ao mesmo tempo em que justifica o
pecador arrependido e renova Suas relações com a raça decaída; que Cristo pode
humilhar-Se para erguer inumeráveis multidões do abismo da ruína e vesti-las
com as vestes imaculadas de Sua própria justiça, a fim de se unirem aos anjos
que jamais caíram e habitarem para sempre na presença de Deus.[15]
Entrentanto, Ellen White
não está sozinha na consideração da redenção como um mistério. O Teólogo Emil
Bruner também examina a divindade e encarnação de Cristo, classificando como um
“mistério” o milagre divino de Deus desejar “encontrar-se conosco num ser
humano”.[16]
[1] WHITE, Ellen G. “The Darkness
Comprehended It Not”, in The Review and Herald, 3 de junho de 1890. Ver
também WHITE, Ellen G.
“Missionary Work”, in The Sings of the
Times, 17 de agosto de 1891, onde afirma: “We do not realize
the claims of redemption. Christ has purchased us by his own precious life. His
tender care has been over us every moment of our existence. Then has he not a
right to our service? He has the claims of redemption, but we have lost the
sense of what it means”.
[2] WHITE, Ellen G. “Christ
Revealed the Father”, in The Review and Herald,
7 de janeiro de 1890.
[3] WHITE, Ellen G. God’s Amazing Grace. Washington, DC:
Review and Herald, 1973, p. 186.
[4] WHITE, Ellen G. “Sacrificed for
Us”, in Youth’s Instructor, 20 de
julho de 1899.
[5] Idem.
[6] WHITE, Ellen G. God’s Amazing Grace, p. 186.
[7]
Para aprofundamento destes dois vocábulos gregos, ver KITTEL, Gerhard. Editor. Theological Dictionary of the New Testament, volume 1. Grand
Rapids, Michigan: Eerdmans, 2006, p. 740-742; vols. 7, p. 747-748. Também
consultar GAEBELEIN, Frank E. Editor. The
Expositor’s Bible Commentary, vol. 10. Grand Rapids, Michigan: Zondervan,
1984, p. 194-195.
[8] MORRIS, Lamb Leon. The First Epistle of Paul to the Corinthians:
An Introduction and Commentary. Revised Edition. Serie: Tyndale New
Testament Commentaries. Leicester, England: Inter-Varsity Press; Grand Rapids,
Michigan, EUA: William B. Eerdmans Publishing Company, 1995, p. 69.
[9] GARLAND, David E. 1 Corinthians. In YARBROUGH, Robert W. e
STEIN, Robert H. Baker Exegetical
Commentary on the New Testament. Grand Rapids, Michigan: Baker Academic,
2003, p. 69-70.
[10] GARLAND, David E. 1 Corinthians, p. 70.
[11] KISTEMAKER, Simon J. Exposition of the First Epistle to the
Corinthians. New Testament Commentary. Grand Rapids, Michigan: Baker Books,
1993, p. 59.
[12] GARLAND, David E. 1 Corinthians, p. 70.
[13] WHITE, Ellen G. “God so Loved the
World”, in The Signs of
the Times, 24 de novembro de 1890.
[14] WHITE, Ellen G. The Desires of Ages: The Conflict of the
Ages Illustrated in the Life of Christ. Mountain View, California: Pacific
Press, 1940, p. 173.
[15] WHITE, Ellen G. The Great
Controversy: The Conflict of the Ages in the Christian Dispensation.
Mountain View, California: Pacific Press, 1950, p. 415
[16]
BRUNER, Emil. Dogmática, vol. 2: Doutrina
Cristã da Criação e Redenção. Tradução de Deuber de Souza Calaça. São
Paulo: Fonte Editorial, 2006, p. 435.
Nenhum comentário:
Postar um comentário