O NOVO ATEU
"Hoje, o ateu não é mais aquele que
não crê, mas aquele que não encontra relevância para Deus na sua rotina. O novo
ateísmo não precisa negar a fé; apenas cria substitutos para ela. Mantém o
crente na igreja, mas longe do seu Salvador".
Ricardo Barbosa de Sousa
Sabemos que existem vários
tipos de ateus. Existem aqueles que não crêem em Deus por não encontrarem
respostas para os grandes dilemas da humanidade como violência, miséria e
sofrimento. Não conseguem relacionar um Deus de amor com o sofrimento humano.
Outros não crêem porque não encontram uma razão lógica e racional que explique
os mistérios da fé, como a criação do mundo, o dilúvio, o nascimento virginal,
a ressurreição, céu, inferno etc. Diante de temas tão complexos que requerem fé
num Deus pessoal, Criador e Redentor, muitos não conseguem crer naquilo que
lhes parece racionalmente absurdo.
Os dois tipos de ateus já
mencionados são inofensivos. Na verdade, são pessoas que buscam respostas, são
honestos e não aceitam qualquer argumento barato como justificativa para suas
grandes dúvidas. São sinceros e lutam contra uma incredulidade que os consome,
uma falta de fé que nunca encontra resposta para os grandes mistérios da vida e
de Deus.
No entanto há um outro tipo de
ateu, mais dissimulado, que cresce entre nós, que crê em Deus e não apresenta
nenhuma dúvida quanto aos mistérios da fé, nem em relação aos grandes temas
existenciais. Ele vai à igreja, canta, ora e chega até a contribuir. É
religioso e gosta de conversar sobre os temas da religião. Contudo, a relevância
de Cristo, sua morte e ressurreição para a vida e a devoção pessoal é
praticamente nula. São ateus crédulos. O ateu moderno não é mais somente aquele
que não crê, mas aquele para quem Deus não é relevante.
Este é um novo quadro que
começa a ser pintado nas igrejas cristãs. Saem de cena os grandes heróis e
mártires da fé do passado e entram os apáticos e acomodados cristãos modernos.
Aqueles cristãos que entregaram suas vidas à causa do Evangelho, que
deixaram-se consumir de paixão e zelo pela Igreja de Cristo, que viveram com
integridade e honraram o chamado e a vocação que receberam do Senhor, que
sofreram e morreram por causa de sua fé, convicções e amor a Cristo, fazem
parte de uma lembrança remota que às vezes chega a nos inspirar.
Os cristãos modernos crêem como
os outros creram, mas não se entregam como se entregaram. Partilham das mesmas
convicções, recitam o mesmo credo, freqüentam as mesmas igrejas, cantam os
mesmos hinos e lêem a mesma Bíblia, mas o efeito é tragicamente diferente. É
raro hoje encontrar alguém em cujo coração arde o desejo de ver um amigo,
parente, colega de trabalho ou escola convertendo-se a Cristo e sendo salvo da
condenação eterna. Os desejos, quando muito, se limitam a visitar uma igreja,
buscar uma "bênção", receber uma oração; mas a conversão a Cristo, o
discipulado com todas as suas implicações, são coisa que não nos atraem mais.
Os anseios pela volta de
Cristo, o desejo de nos encontrarmos com ele e ver restaurada a justiça e a
ordem da criação ficaram para trás. Somente alguns saudosos dos velhos tempos
lembram-se ainda dos hinos que enchiam de esperança o coração dos que
aguardavam a manifestação do Reino. A preocupação com a moral e a ética, com o
bom testemunho, com a vida santa e reta não nos perturba mais - somos modernos,
aprendemos a respeitar o espaço dos outros. O cuidado com os irmãos, o zelo
para que andem nos caminhos do Senhor, as exortações, repreensões e correções
não fazem parte do elenco de nossas preocupações. Afinal, cada um é grande e
sabe o que faz.
Enfim, somos ateus modernos, o
pior tipo de ateu que já apareceu. Citamos com convicção o Credo Apostólico,
mas o que cremos não tem nenhuma relevância com a forma como vivemos. A pessoa
de Cristo para muitos é apenas mais uma grife religiosa, não uma pessoa que nos
chama para segui-lo. O ateísmo moderno se caracteriza pela irrelevância da fé,
das convicções, do significado da igreja e da comunhão dos santos.
A irrelevância de Deus para a
vida moderna é intensificada pela cultura tecnocrática. Temos técnicas para
tudo: para ter um matrimônio perfeito, criar filhos felizes e obedientes, obter
plena satisfação sexual no casamento, passos para uma oração eficaz, como
conseguir a plenitude do Espírito Santo e muitos outros "como fazer"
que entopem as prateleiras das livrarias e o cardápio dos congressos. A
sociedade moderna vem criando os métodos e as técnicas que reduzem nossa
necessidade de Deus, a dependência dele e a relevância da comunhão com ele.
Chamamos uma boa música de adoração, um convívio agradável de comunhão, uma
moral sadia de santificação, assiduidade nos programas da igreja de compromisso
com o Reino de Deus.
As técnicas não apenas criam
atalhos para os caminhos complexos da vida, como procuram inverter os pólos de
atenção e dependência. Tornamo-nos mais dependentes de nós do que de Deus,
acreditamos mais na eficiência do que na graça, buscamos mais a competência do
que a unção, cremos mais na propaganda do que no poder do Evangelho. Tenho
ouvido falar de igrejas que são orientadas por profissionais de planejamento
estratégico. Estudam o perfil da comunidade, planejam seu desenvolvimento,
arquitetam seu crescimento e, de repente, descobrem que funcionam, crescem, são
eficientes, e não dependem de Deus para nada do que foi planejado. Com ou sem oração
a igreja vai crescer, vai funcionar. Deus tornou-se irrelevante. Tornamo-nos
ateus crentes.
A minha preocupação não é
simplesmente criticar o mundo religioso abstrato, superficial e impessoal que
criamos ou criticar a tecnologia moderna que, sem dúvida, pode e tem nos
ajudado. Minha preocupação é com o coração cada vez mais distante, mais
abstrato, mais centralizado naquilo que não é Deus, mais dependente das
propagandas e estímulos religiosos, mais interessado no consumo espiritual do
que numa relação pessoal com Deus.
Como disse, o ateu hoje não é
mais aquele que não crê, mas aquele que não encontra relevância para Deus na
sua rotina, não precisa da comunhão dele para a vida. A sutileza do novo
ateísmo é que ele não precisa negar a fé, apenas cria substitutos para ela.
Mantém o crente na igreja, mas longe do seu Salvador. Este ateu está muito mais
presente entre nós do que imaginamos.
Ricardo Barbosa de Sousa
é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto (DF)
é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto (DF)
Fonte: Revista Eclésia
http://www.eclesia.com.br/colunistas/2001-09-espiritualidade.html
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